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Desertificação no Ceará: áreas afetadas poderão ser recuperadas?

A pesquisadora Rousi Diniz analisa o fenômeno e explica diferentes ações que afetam e influenciam o processo ambiental

Considerado fenômeno ambiental, causado tanto por ações naturais como humanas, o processo de desertificação está cada vez mais se apossando de territórios cearenses. De acordo com o último gráfico realizado pela Gerência de Estudos e Pesquisas em Meio Ambiente (Gepem), de 2019, o Ceará possui cerca de 11,45% de sua extensão já tomada pela desertificação.

Segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (UNCCD), o processo de desertificação pode ser definido como uma ação de degradação das terras, principalmente em zonas áridas, semiáridas e subúmidas secas. O impacto é resultado das variações climáticas e das atividades humanas. Rousi Diniz, pesquisadora da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), analisou o processo de desertificação no Ceará nos últimos anos.

“O último mapeamento das áreas fortemente degradadas em processo de desertificação realizado pela Funceme e publicado pelo CGEE¹, foi feito em 2016. Um mapeamento mais recente de áreas com solo exposto, também de autoria da Funceme, mostra áreas que permaneceram com solos expostos em um período de 20 anos, classificando-as em intervalos de exposição. Comparando os dois mapeamentos, apesar de apresentarem metodologias distintas, podemos observar que em se tratando de aumento de área, não há diferenças muito significativas. No entanto percebe-se o avanço da degradação nas áreas já mapeadas, ou seja, as áreas continuam sofrendo as consequências do processo de desertificação. Há, portanto, um agravamento no processo, em termos de severidade da degradação”, destaca Diniz.

Segundo ela, “algumas pesquisas e projetos de recuperação de áreas degradadas em processo de desertificação vêm mostrando que é possível, sim, reverter e recuperar essas áreas”. A pesquisadora defende que a preservação ambiental é fator preponderante para diminuir a possibilidade de expansão das áreas já afetadas. “Essas ações de recuperação dependerão do grau de degradação, podendo, em alguns casos, ser difíceis de executar. É sempre importante lembrar que a prevenção da degradação ambiental é mais eficiente e sustentável. Como exemplo dessas iniciativas, a Funceme implementou um projeto de recuperação de uma área degradada de 5 hectares no município de Jaguaribe, denominado Projeto Brum”, compartilhou Diniz, sobre a possibilidade de reversão do processo de desertificação.

“Após 10 anos da implementação das práticas para a recuperação do solo e da vegetação, é nítida a transformação do local, que foi apelidada pelos moradores da região de “Amazoninha”. Além da recuperação da vegetação, os animais também retornaram à área, evidenciando a importância desses projetos para a preservação da biodiversidade da nossa caatinga. Neste ano de 2025, a Funceme publicará um livro que conta a história desse projeto”, concluiu.

A estudiosa avalia que os problemas são ocasionados por um conjunto de situações e não somente pela condição climática: “As mudanças climáticas afetam diretamente a desertificação, uma vez que suas causas são tanto antrópicas quanto ambientais. O aumento de eventos de secas prolongadas e da temperatura afeta a vegetação e as reservas hídricas do solo, além de aumentar a oxidação da matéria orgânica desencadeando diversos impactos negativos, como a ciclagem de nutrientes e redução da proteção do solo contra os processos erosivos. Com o solo mais ressecado e sem cobertura vegetal, eventos de chuvas extremos, previstos com as mudanças climáticas, tendem a intensificar ainda mais a erosão do solo, resultando no assoreamento de rios e reservatórios hídricos”, destaca a pesquisadora sobre a influência de mudanças climáticas na desertificação.

Diniz também explicou como a ação humana pode acelerar o fenômeno. “Por definição, a desertificação é causada por fatores humanos e ambientais. Atividades humanas sem planejamento sustentável e a crescente pressão populacional, especialmente por alimentos, contribuem diretamente para degradação ambiental. É fundamental discutir as causas e buscar alternativas para o uso sustentável das terras. Técnicas rudimentares de manejo do solo, exploração extrativista sem planejamento, o desmatamento desordenado, as queimadas, vêm exaurindo o solo e comprometendo a vegetação. Não é possível falar em desertificação isolando elementos “homem e natureza”, a interação entre ambos sempre deve ser considerada nesse processo. Precisamos buscar o uso dos recursos naturais de forma positiva e sustentável”.

“ O Ceará conta com diversas experiências e pesquisas exitosas, além de políticas de gestão dos recursos hídricos que são considerados modelos para outros estados, como os comitês de bacia. Na Funceme, há muitos estudos ambientais voltados para a convivência com as secas e o uso sustentável dos recursos naturais. Naturalmente será necessário adaptar as pesquisas às novas condições climáticas, visando a mitigação dos impactos ao ambiente e à população. Estamos em um momento que exige atenção aos sinais que a natureza vem nos dando, e o processo de desertificação é um desses sinais, pois transforma áreas agricultáveis em regiões inférteis, afetando diretamente a produção de alimentos para uma população em constante crescimento” finaliza a pesquisadora em relação ao preparo do estado do Ceará para combater a desertificação.

Texto: GABRIELA TAVARES | Foto: reprodução  

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